Emergência radioativa — minissérie que está “bombando” em um famoso streaming — reacende a discussão sobre um dos episódios mais graves da história do Brasil: o acidente com césio-137, em Goiânia, em 1987.
Você pode até pensar que o assunto é “velho para ser abordado” ou que está distante da sua realidade nos negócios. Agora, pense comigo: você é o responsável técnico da unidade da cooperativa onde atua, o diretor da sua empresa, o engenheiro da construtora que assina a obra, o profissional que responde pelos laudos aos órgãos de fiscalização…
Em 16 anos de experiência em ambientes corporativos, já vivenciei diferentes crises — e uma coisa é certa: não existe aviso prévio para o início de uma que impacta diretamente a marca e os resultados. Veja este caso (contém spoiler):
A série conta a história de duas pessoas que encontraram um equipamento em uma clínica de radiologia abandonada e venderam a peça de metal para um ferro-velho. Ao manipular a estrutura, o dono desse estabelecimento encontra um material azul brilhante e fica fascinado com o que vê.
Ele leva o material para casa e ali permanece por vários dias. Nessa estrutura metálica havia césio-137, que é radioativo e, a princípio, de forma silenciosa, deixou rastros de contaminação por onde passou.
Entra em cena um dos protagonistas da série, o físico Márcio, que alerta o governador e a Secretaria de Saúde sobre os perigos desse elemento químico “circulando” pela cidade.
O caos está instaurado: dúvidas sobre como lidar com os contaminados, a necessidade de isolamento para conter a propagação, a exigência de um hospital preparado, além de profissionais especializados para lidar com a situação — uma sequência de decisões críticas sob pressão e com alto grau de incerteza.
Nesse contexto turbulento, não houve um alinhamento de informações entre os envolvidos na resolução do caso. Claro que, diante de um fato tão inusitado e da emergência instaurada, eram muitas vozes tentando compreender o que estava acontecendo para agir da melhor forma possível (de um lado, o governador afirmando que a situação estava controlada; de outro, técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear apontando o contrário).
Ainda assim, era preciso responder rapidamente a perguntas essenciais: como comunicar o que estava acontecendo? Como explicar à população os motivos do isolamento físico e do abandono de suas casas (também contaminadas)? Como conduzir cada novo caso identificado? O que seria feito com o material radioativo? E, principalmente, quem seria o porta-voz capaz de sustentar essas respostas com clareza e credibilidade?
Quando a informação falha, a imaginação ocupa o espaço. E, no imaginário popular, isso se traduz em medo, distorção e perda de confiança.
Essa desorganização afeta diretamente a imagem e a reputação de qualquer organização, seja pública ou privada. Do ponto de vista técnico, fica evidente a importância de um gerenciamento de crise estruturado — aplicável a diferentes contextos: acidentes aéreos ou de trânsito; situações sanitárias; calamidades públicas, como enchentes e incêndios de grande proporção; momentos de luto coletivo; ou até comunicados de demissões em massa são alguns exemplos.
Marcas e organizações precisam estar preparadas para gerir sua reputação com cautela, técnica e olhar estratégico. E, nesse processo, a comunicação empresarial assume um papel central e não pode ser negligenciada. É ela que cria pontes entre os públicos, esclarece fatos para a imprensa, orienta lideranças a se posicionarem com clareza e empatia, estabelece fluxo de informações consistentes e apoia equipes na condução de momentos delicados.
A credibilidade de um negócio é construída ao longo do tempo, mas, em contextos críticos, pode se fragilizar em questão de horas.
Sei que pode surgir o pensamento: “meu negócio é pequeno, não preciso disso”. Você é pequeno hoje; amanhã, pode não ser. Além disso, aprender com a história amplia a capacidade de resposta das empresas e fortalece sua atuação diante de situações complexas — não apenas para reagir, mas para responder com estratégia, consciência e responsabilidade.